









Dizem que o primeiro beijo é inesquecível, mas por muitas vezes penso que o mais correto seria dizer que os primeiros beijos são inesquecíveis. Estranhamente, sempre lembramos de uma forma diferente.
Meus primeiros contatos com lábios femininos se deram na pré-adolescência, tradicionalmente através da famosa brincadeira de médico e a mais divertida de todas: verdade ou conseqüência. Também chamada de verdade ou desafio, diga-se de passagem.

Até aí, nada de anormal. Como todo bom nerd, minha vida afetiva não era lá muito ativa, mas ao menos eu tinha uma vida afetiva. Porém, tudo mudou quando aquela festa aconteceu... Está bem! Não mudou muita coisa, mas a festa que descreverei a seguir realmente me marcou, tanto quanto meu primeiro beijo.
Aquela festa foi um das minhas primeiras à noite e sozinho, sem a supervisão de alguém mais velho. Na época, eu ainda me vestia de acordo com o que escolhiam para mim. Claro que com meu total apoio.
Então, vestido como um clichê, chego à casa do anfitrião e, como era de se esperar, muita coisa acontece, mas... Como acredito ter um sério problema de memória, não faço ideia de como passei o tempo. Imagino que me divertindo e interagindo com colegas de aula. Provavelmente sem grandes investidas amorosas, ainda era muito tímido para essas coisas.
Passado algum tempo, resolvo ir ao banheiro. Como na festa havia apenas um banheiro, tanto para homens, quanto para mulheres, acabo me deparando com uma fila quilométrica.
Mas enquanto alguns garotos pensavam em se aliviar em vasos de flores, lindas garotas conseguiam, sem muitos esforços, passar à nossa frente. Algumas mais de uma vez. Tudo, apenas com um charminho no ouvido dos rapazes.
E de algum modo, inexplicavelmente, aquilo me entusiasmou. Adoraria ter o poder de conceder, ou não, o pedido de uma bela jovem. Perdido nesse pensamento, percebi que chegara a minha vez graça a uma suave e maliciosa voz sobre meu pescoço:
- “Se importa se eu for antes?”.
Certas horas eu sinto saudade da minha timidez. Por mais que eu quisesse dizer que faria tudo que, ela, uma ruivinha linda quisesse, tudo o que conseguir dizer foi:
- “Desculpa, mas eu já estou na fila a um tempão e...”.
Se já não estava raciocinando direito, surtei de vez ao ver aquela menina de micro-saia tentando pela terceira vez brincar de sedução para, sei lá, retocar sua maquiagem. Como sou baixinho, ela fez questão de se abaixar e dizer com uma voz suave e um tanto manhosa:
- “Puuur favooor!”.
Pela primeira vez da vida, eu tinha o poder de fazer uma garota jogar seu charme em mim e não estava disposto a desperdiçar:
- “Bem, se quiser pode dividir comigo.”.
É obvio que ela disse não, minha surpresa foi não ter levado um tapa. Rapidamente, entrei e fechei a porta. No que eu estava pensando? Aliás, eu estava pensando? Que mancada a minha! Que estúpido! Que impulsivo! Que...
- “(...) danadinho, hein?!”
Era ela, do outro lado da porta. E pelo tom, eu tinha que fazer mais uma investida. Abri a porta e tentei:
- “Tem certeza que não quer entrar? É sua última chance, gatinha.”

Era a primeira vez que eu chamava alguém de gatinha e, pelo seu sorriso, tinha dado muito certo.
Sem falar nada, ela acenou um até breve para suas amigas e entrou. Esqueça meu eu galanteador que recém descoberto! Dentro do banheiro, voltei a ser o mesmo tímido de antes. Com um grande agravante, estava mais nervoso que nunca.
Porque grande? Simplesmente porque meu corpo reage externamente a meu nervosismo interno. Se a coisa piorasse, eu teria crise de tosses, meu rosto ficaria vermelho e começaria a coçar. Engraçado, esta é a primeira vez que revelo isso. Bom, talvez segunda, mas não vem ao caso.
A deixei a vontade para ser a primeira, afinal o meu intuito já tinha conseguido: ficar a sós com uma garota alí dentro. Mesmo que a moça apenas retocasse seu batom, ninguém de fora iria saber o que realmente aconteceu naquele banheiro.
Ela, vestia uma camiseta preta que lhe proporcionava um belo decote e uma saia evasê azul claro, estilo bailarina, mas muito antes disso ser moda. E como toda mulher, carregava uma bolsa, que deixara sobre o cômodo da pia.
Seus cabelos eram alaranjados e seus lábios estavam umedecidos. Seus olhos eram claros, mas não lembro se eram verdes ou azuis. Tinha um rosto meigo e, apesar de mais alta e com curvas muito bem distribuídas, tinha o corpo pequeno e delicado.
O banheiro, por ser bastante espaçoso e ter piso xadrez, poderia se dizer que lembra muito um da casa de uma prima minha, mas isso também não vem ao caso.
O fato é que, encostado na parede e a uma considerável distancia, presenciei a moça cobrir o vaso com papel higiênico, baixar sua calcinha, levantar a saia e sentar sem pudor algum.
Se ainda hoje, é embaraçoso revelar, assim, de forma tão transparente, na ocasião não era diferente. Pois lá estava eu, encostado na parede, não conseguindo pensar em outra coisa além de conter uma crise nervosa que estava prestes a vir à tona. Do outro lado ela, especialmente linda e ligeiramente alcoolizada, sem tirar os olhos de mim, nem dizer uma só palavra.
E assim ficou, por um bom tempo, quando finalmente resolveu falar:
- “Você vai ficar aí, olhando para mim?”.
Eu queria ter a respondido, queria ter me virado de costas, queria até mesmo ter aproveitado melhor a sensação. Mas naquela época, qualquer nervosismo mínimo que fosse eu já entrava
Do ponto de vista dela, isso com certeza deveria me garantir uma cara séria e talvez oportunista. Esta nunca foi a minha intenção, aliás, eu já não sabia qual era a minha intenção com aquilo tudo.
Desconfortável e ainda zonza da bebida, insiste mais uma vez:
- “Poderia virar de costas, por favor? Assim eu não consigo...”.
Então ela dá uma pequena pausa e diz algo totalmente inesperado e inesquecível:
- “(...) assim você me deixa muito excitada.”.
Eu mal podia acreditar no que acabara de ouvir, eu se quer podia lembrar de passar mal, eu simplesmente olhei em seus olhos, sorri e esperei sua reação, suas novas falas:
- “Puuur favooor! Eu preciso ir, meu namorado está esperando.”.
Aquela situação também estava me excitando, lógico. E como dizem por aí que em time que está ganhando não se mexe, a deixei falar:
- “Você está sendo muito malvado! O que você quer de mim? Fala alguma coisa!”.
A cada fala, ela parecia ficar ainda mais linda e, por esse motivo, devo dizer que o que contarei a seguir é um tanto revelador. Pensei muito se deveria ou não me abrir assim, mas não acho certo esconder parte dos acontecimentos. Até porque, inevitavelmente, isso influi diretamente no desfecho e razão de tudo isso.
Atenção! A partir de agora, escrevei em amarelo para todos aqueles que não ousarem ler algo tão intimo, possam continuar a par dos acontecimentos mesmo pulando detalhes. Basta descer um pouco mais no texto.
Antes de tudo, eu tenho uma confissão a fazer: durante anos de minha vida, eu não usei roupa íntima. Questão de incompatibilidade física. Como não sou um cara grande, achar algo que não ficasse grande atrás ou, principalmente, apertado na frente era uma tarefa homérica.
Gostaria de dizer que a Teoria do L é verdadeira e, com o perdão da linguagem, dizer que todo baixinho é realmente muito bem dotado, mas como não tenho e nem pretendo ter referenciais, tudo pode ser mera ilusão.
O fato é que, naquele momento, no auge da minha puberdade, eu realmente não me adaptava a peças íntimas. Sendo assim, estava difícil esconder meu entusiasmo com uma garota seminua declarando-se excitada comigo.
Ela não falou muito mais do que já tinha dito. As pessoas já batiam na porta enquanto eu a ouvia dizer de como se sentia submissa daquele jeito e como isso a estava deixando louca. Pela cara de danadinha, eu sabia que era no bom sentido.
Foi então que seus olhos fixaram-se na minha cintura. Percebi que já não escondia entusiasmo nenhum, estava visivelmente excitado. Extremamente visível.
Poucos segundos bastaram para ela mudar completamente de atitude. Virou seu rosto ruborizado para o lado e com o canto de seus olhos claros ficou me olhando, como quem não queria olhar.
Tomado pela confiança, já me sentia a vontade ao ponto de fazer graça, alfinetando a atitude da, até então, garota de atitude.
Já havia perdido a conta de quantas pessoas gritavam impacientes, do outro lado da porta, quando minha desconhecida amiga toma uma atitude impulsiva. Levanta-se já se vestindo e se recompondo, pega algo em sua bolsa, dirige-se até mim, se baixa e, olhando diretamente nos meus olhos, diz com um sorriso tímido:
- “Ok, você venceu!”.
Em seguida, ela segura em minha mão e puxando meu braço, escreve na palma seu número de telefone e seu nome, Renata.
A garota então me beija. Não foi um grande beijo, nossas línguas não se tocaram. Talvez por ainda ser inexperiente nessas coisas, mas foi, com toda certeza do mundo, deliciosamente demorado e intenso.
Renata, sem afastar seus lábios de meu rosto, dirige-se até meu ouvido e diz:
- “Me liga, gatinho!”
Enquanto eu olhava novamente para minha mão, a garota da saia de bailarina verificava se seu namorado não lhe esperava do lado de fora do banheiro. Com o caminho livre, ela me chama e saímos juntos. Mas não por muito tempo.
Junto com suas amigas, Renata faz sinal para que eu não as seguisse, apenas ligasse outro dia. A festa continuou, mas eu fui embora pouco tempo depois de vê-la beijando seu par. Ainda era muito novo para lidar com esse tipo de cena.
Não lembro de ter contado a ninguém essa minha odisséia de um beijo inesquecível, nem mesmo para meus amigos mais próximos. Na época minha auto-estima não era lá essa coisa e em minha cabeça, ninguém acreditaria.
É claro que tentei marcar alguns encontros, mas pelo telefone, Renata não era a mesma pessoa que conheci na festa. Porém, com o distanciamento que o tempo me permite, talvez seja melhor dizer que eu é quem não era o mesmo cara que mostrei ser quando estávamos a sós.
Muitas festas se passaram e até hoje, quando tenho oportunidade, repito o mesmo convite fiz naquela festa. Não tenho conseguido a mesma sorte. Talvez por isso, o beijo tenha me marcado tanto.
Em tempo: E você, ainda lembra das odisséias e momentos tão especiais de sua vida?
